sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Como colocar um fim a dor emocional


Podemos localizar em nossa vida fases em que uma dor emocional permanece instalada em nós por um longo período – um ano e meio, pelo menos. Vamos dormir sabendo que, ao acordar, sentiremos a mesma dor no peito. Geralmente isso ocorre quando vivemos algo maior do que nossa capacidade de elaborar.

A meta de transformar o sofrimento em autoconhecimento faz com que nos sintamos íntimos da nossa dor, tão próximos dela que, às vezes, sentimos pena de deixá-la. Eu me lembro claramente da primeira vez que senti nostalgia por perceber que uma dor emocional estava para acabar. Cheguei a perguntar para Gueshe Sherab: ”Será que sem essa dor continuarei aprendendo tanto quanto aprendi ao senti-la?”. Ele riu e me respondeu: “Você não precisa chamar a dor para evoluir, pode ter certeza que sempre haverá sofrimento suficiente para aprender algo com ele. Quando a mente não está sobrecarregada com uma dor intensa, pensa melhor”.

Se estivermos sofrendo pela mesma dor há muito tempo, devemos identificar o momento de nos desapegarmos dela. É necessário sentirmos a dor apenas enquanto ela nos ajudar a aprender mais a nosso próprio respeito, ou seja, enquanto ela representar uma forma de ampliarmos a visão acerca de nós mesmos.

Parece óbvio que ninguém deseja se apegar à dor. Na realidade, porém, desapegar-se dela talvez seja um de nossos maiores desafios.

Aceitar a necessidade de abandonar um padrão emocional, mesmo que ele implique sofrimento, pode ser tão difícil quanto aceitar a morte de um ente querido, pois sentimos como se perdêssemos algo de nós mesmos. Em ambos os casos devemos aprender a fazer o luto. Como escreve Christine Longaker: “O processo de recuperação da nossa dor pode nos ajudar a viver de maneira mais plena e apreciar cada dia, e cada pessoa, como uma dádiva insubstituível. No luto, devemos por fim nos desapegar da pessoa que se foi, no entanto, podemos manter o seu amor conosco. Não somos abandonados na perda; podemos nutrir nossas memórias de amor, e permitir que o amor continue fluindo na nossa direção”(1). Do mesmo modo, quando nos separamos de um padrão emocional dolorido com o qual convivemos por tantos anos, devemos manter a consciência de sua importância em nosso processo de autoconhecimento: uma forma de gratidão pelo aprendizado.

Sogyal Rinpoche sugere o contato com a natureza como um potente método de pôr fim à dor: “Um dos métodos mais poderosos que conheço para aliviar e dissolver o sofrimento é ir para a natureza, contemplar uma cachoeira, em especial, deixando que as lágrimas e a dor saiam de você e o purifiquem como a água que flui. Pode também ler um texto tocante sobre a impermanência ou o sofrimento, e deixar a sabedoria contida em suas linhas trazer-lhe consolo. Aceitar a dor e pôr-lhe fim é possível”.

Quando nos familiarizamos com certa dor, tornamo-nos dependentes dela para nos sentirmos seguros. Muitas vezes, assim que nos sentimos alegras, passamos a sentir insegurança. Quem já não disse para si mesmo a frase: “É bom demais para ser verdade”. Eis que preferimos a dor: sentimo-nos, infelizmente, seguros com ela.

A intensidade da dor de uma emoção possui um tempo que lhe é próprio, mas que também tem seu fim. Se ela continuar presente depois de um tempo prolongado é porque a estamos invocando em demasia. É melhor pararmos de invocar essa dor e abrirmo-nos para o desconhecido, perguntando-nos: “Como serei sem essa dor?”.

Lama Gangchen Rinpoche nos alerta: “Estamos profundamente habituados a essas respostas emocionais negativas que, por esse motivo, surgem já quase espontaneamente a partir de causas muito pequenas. Desperdiçamos tempo demais nos preocupando obsessivamente com nossos problemas emocionais.

Se quisermos mudar, teremos que começar a fazer algo diferente em nosso dia-a-dia. O poder de decisão de sair de uma dor surge com a percepção de que estamos sofrendo desnecessariamente!

Precisamos, então, treinar a reconhecer o nosso bem-estar para tomar decisões baseadas na alegria.

Quando aceitarmos o fato de que podemos experimentar conscientemente nossa dor, então, estaremos prontos para nos libertar dela! Finalmente romperemos o hábito de autocomiseração e estaremos aptos para sermos felizes.

No Budismo Tibetano podemos aprender a usar a emoção como veículo de transmutação, como nos explica John Welwood: “Como palavra alquímica, transmutação significa converter alguma coisa aparentemente inútil em algo valioso, como chumbo em ouro”.

Muitas vezes encontramos justificativas nobres para não mudar, quando, na realidade, estamos é precisando ser mais sinceros com nossa fraqueza.

A sinceridade é um antivírus contra as interferências interiores e exteriores, pois quando somos sinceros não fazemos rodeios. A sinceridade nos dá coragem e abertura para lidar com qualquer situação, agradável ou desagradável. Desta forma, nos abrimos para o mundo. A falta de foco é um modo de nos protegermos das exigências do mundo, e de adiarmos nossa participação nele.

Ao saber quem somos, podemos adquirir a flexibilidade de perceber igualmente as nossas necessidades e as dos outros sem privilegiar nenhuma das partes. Assim, não estaremos amarrados a nós mesmos, nem nos confundirmos com os desejos dos outros.

Então pergunte-se agora, com toda sinceridade: “Será que estou sofrendo desnecessariamente?”. Temos que admitir que nossa resposta será sim enquanto estivermos tendo dificuldades para lidar com a imperfeição. Enquanto formos inflexíveis e controladores, sofreremos desnecessariamente.

A maneira como lidamos com as situações imprevisíveis na vida indica-nos aptidão para a felicidade. É natural contarmos com certo grau de previsibilidade para nos sentirmos seguros, mas se não quisermos sofrer desnecessariamente precisamos aceitar o fato de que não podemos controlar os eventos da vida.

Quando algo que julgávamos certo e estável desaparece- como um relacionamento, um emprego ou nossa saúde, sentimos um grande vazio, mas teremos que reconhecer que erramos ao esperar que nossa vida fosse previsível.

Podemos treinar para nos arriscarmos diante de uma situação desconhecida alimentando a curiosidade por nossa própria capacidade de atuação. Podemos, por exemplo, nos propor: “Quero só ver como vou me oferecer o melhor nesta situação desconhecida. Estou curioso(a) para ver como não irei me abandonar desta vez”.

(1) Bel Cesar (org), Oráculo I Lung Tem, Ed Gaia.p.67.

Texto extraído do Livro das Emoções, Bel Cesar, Ed Gaia.

Bel Cesar é psicóloga clínica com formação em musicoterapia no Instituto Orff em Salzburgo, Áustria – Pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano – Presidiu o Centro de Dharma da Paz Shi De Choe Tsog, em São Paulo, por 16 anos tornando-se presidente honorária em 2004.


Um comentário:

Rennatha Lins disse...

FOTO DOR EMOCIONAL

"Deus me ajuda, eu sinto dor!
Me desespero com o sofrimento. Corro para todos os lugares, mas essa dor não me deixa!
Continuo a correr olhando para trás como se algo fosse me atacar, mas não vejo nada.
Oh Deus, que dor e medos são esses?!
Corro tanto por todos os lugares que não consigo mais focar minha atenção, acabo por me perder. Grito por socorro, porém eis que estou só, nem o eco da minha voz escuto.
Eu não sei mais o quê fazer comigo; não sei explicar o quê sinto, e agora encontro-me em um lugar chamado 'NADA'.
Estou no deserto!
Ai, como meu corpo está cansado dessa dor que consome minha alma, destrói meus nervos, dilacera meu coração e, com grande impacto, joga meu corpo no chão.
Não consigo mais levantar!
Sem saber como agir, cubro o meu rosto com meus braços curvando-me cada vez mais, como se fazendo isso eu pudesse arrancar, com minhas próprias mãos, todas as mazelas emocionais
Será que minhas forças acabaram, que minha energia se foi, ou que minha matéria está morrendo?
Tem momentos que sem saber o quê fazer, penso em coisas terríveis, inclusive na morte.
É a dor emocional que está danificando, arrasando meu Ser."
PARA TUDO!
Teu corpo está cansado, mas tua essência vai te levantar.
Mas, por que ao cair o corpo sente uma enorme dificuldade em levantar?
Talvez porque quando a dor perdura por muito tempo dentro de nós, caímos criando uma maléfica árvore – escura; torta e assustadora –, em nossos corpos. Se demorarmos a nos levantar, esse tipo de árvore crescerá em pontos específicos do corpo, como a coluna, exemplo da foto.
É ela que nos prende ao chão, travando a energia de nossa alma, de nossa consciência.
A raiz penetra no corpo cravando-o no chão. Crescendo cada vez mais, ela dificulta o erguer da pessoa.
Enfim, a energia que deveria circular pelo corpo, foi bloqueada pela raiz dessa monstruosa árvore. E as outras árvores parecem caminhar em direção ao corpo para dele se alimentar de energia.
Você pode jogar essa dor para fora.
Afirme sempre que teu corpo é sadio, que tua mente é tua fortaleza, e aprenda a utilizar sabiamente a energia que Deus colocou em você.
Se você conseguir inspirar profundamente, segurar o ar por alguns segundos e em seguida expirar pela boca, jogando o ar para fora com um sopro bem forte, talvez não veja ou perceba, mas estará eliminando toda dor emocional que se irradiou em teu corpo.
O ar que soltar, vai sair como uma fumaça negra atingindo a raiz dessas árvores que te seguram no chão, secando e matando cada pedaço de tronco que impede você de levantar, porque tua energia vai voltar com força e num impulso expulsar esse peso de teu corpo.
Quanto mais fizer, mais rápido será a tua melhora. Com certeza!
Isso é só um começo.
Não permita que pensamentos negativos te empurrem para a escuridão, se isso já aconteceu, saia daí; levanta-te que a capacidade em fazer com que tudo mude, está dentro de você. E creia que vai conseguir encontrar o alívio e a paz.
"E a energia começará a fluir os movimentos mais sutis nos músculos do corpo..."