domingo, 20 de março de 2011

Envolvimento emocional e indiferença consciente



Quando se trata de relações interpessoais, o envolvimento das emoções tende a fluir porque é uma característica humana relacionada aos sentimentos. Porém, quando trata-se de quadro depressivo associado a envolvimento emocional - ou vice-versa -, as relações com determinadas pessoas podem provocar sofrimento no indivíduo em crise. É o que veremos a seguir.

Muitas pessoas com problemas emocionais e baixa auto-estima que procuram auxílio na Psicoterapia Interdimensional, são orientadas durante o processo terapêutico a exercitarem a indiferença emocional nas relações interpessoais.

Não estimulamos, é claro, a frieza, a distância física ou o "nariz empinado" nas relações, mas a indiferença necessária em certas situações como instrumento psicológico de defesa e de controle das emoções.

É óbvio que o exercício da indiferença consciente - ou não envolvimento emocional - é específico a casos em que o desequilíbrio das emoções está relacionado à depressão ou traço depressivo, à baixa auto-estima e a ambientes - familiar, profissional, etc. - contaminados por conflitos pessoais.

O indivíduo de traço depressivo, geralmente, torna-se hipersensível a críticas ou comentários inoportunos a seu respeito. A tendência de supervalorizar críticas dirigidas à sua pessoa, acontece devido ao aumento da tensão interna decorrente da desvalorização de sua auto-imagem refletida no meio sócio-familiar.

A insegurança e o medo de desafiar certas situações do cotidiano que exigem firmeza, auto-afirmação diante do outrem ou voz ativa e até opinião própria, faz da pessoa de traço depressivo, fechar-se em si mesmo como uma concha que numa atitude defensiva, protege-se do ambiente à sua volta.

Portanto, além de investigar o inconsciente à procura de consideráveis traumas psíquicos do passado, a Psicoterapia Interdimensional, busca também o reforço psicológico necessário através do despertar para uma mudança de atitude que vise o enfrentamento de situações que afetam o indivíduo a ponto de desestabilizá-lo emocionalmente.

O exercício da indiferença consciente, ou seja, tornar-se conscientemente indiferente em situações de risco à integridade psíquica e emocional, pode ser a melhor "resposta" no sentido da valorização de si mesmo, porque é autovalorizando-se que o indivíduo, ao projetar a sua auto-imagem positiva, é considerado e valorizado aos olhos do outrem.

A vida em sociedade exige preparação para o "jogo de forças" próprio dos antagonismos encontrados nos ambientes de convívio humano, principalmente nos ambientes de trabalho, onde egos costumam entrar em conflito. E se não nos encontramos emocionalmente equilibrados, sofremos as consequências de uma violência sutil, implícita que é absorvida por aquele que encontra-se com a sensibilidade à flor da pele...

Quando estamos em crise depressiva, portanto, mais suscetíveis e sensíveis, críticas ou comentários vindos de terceiros, por menos incisivos que sejam, ganham uma proporção bem maior do que na realidade representam. Quando isso acontece de uma forma cíclica e a nossa reação defensiva é se fechar e encolher como o exemplo da concha, é momento de buscarmos auxílio na psicoterapia.

Nessas situações, a mágoa que nos afeta e a raiva que sentimos por não termos domínio da situação ou segurança psicológica para uma resposta adequada, funciona como um veneno que vai minando as nossas resistências psicológicas e preparando terreno para o surgimento das somatizações.

Por este motivo, a prática da indiferença consciente, independentemente das origens da depressão que são investigadas pela técnica psicanalítica, prepara o indivíduo para reagir conscientemente a um momento de desarmonia emocional, que é a saída de emergência de uma situação que tem lhe proporcionado sofrimento psíquico.

Perceber o momento vital, portanto, é o primeiro passo para reagirmos à situação imposta, e o segundo passo para termos o domínio da situação, que pode ser por intermédio da atitude de indiferença consciente ou da atitude de enfrentamento, onde o fundamental, é a pessoa adquirir segurança psicológica para ter atitude ativa e consciente em substituição à passiva e inconsciente.

O segredo é saber administrar as suas emoções e ter o controle de situações que exigem atitude firme, seja através da indiferença inconsciente ou do enfrentamento sem violência e tendo como opção o diálogo. Dessa forma, o indivíduo estará se valorizando diante de si mesmo e do outrem.

No sentido emergencial, é o exercício que pode agilizar o processo de conscientização do indivíduo em relação a uma quebra de paradigma comportamental que o acompanha há muito tempo.

Nessa direção, não esqueçamos que o sentimento de vítima - ou vitimização - que inconscientemente alimentamos, permanece por tempo indeterminado nas muitas vidas do espírito imortal. Portanto, é dever do indivíduo que busca qualidade em sua vida, libertar-se dos grilhões da inconsciência que o prendem ao passado.

Por Flávio Bastos


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