domingo, 25 de janeiro de 2009

Quando chorar faz bem

Chorar é um comportamento cultural.

Algumas culturas choram mais que outras. Certa vez ao acudir no Nepal, uma tibetana que estava chorando, ela me disse constrangida: “Chorar para os tibetanos não faz bem: faz a nossa energia cair e deixa os outros tristes também”.
Existem vários tipos de choro: desde aquele que alimenta a autocomiseração e busca manipular o ambiente ou o estado de espírito dos que estão em volta, até o choro saudável no qual lamentamos a nossa dor para nos desapegar dela. Este último, não é regido pela vitimização, mas sim pela necessidade sincera de sentir nossa dor sem restrições.

Lamentar não é reclamar ou se queixar, o que apenas intensificaria o sofrimento.

Lamentar é expressar nossas mágoas como uma forma de aliviar a pressão interna. Nos ajuda a desbloquear uma emoção presa em nosso interior.
Morrie Schwartz, em seu livro Lições sobre amar e viver (Ed. Sextante) nos inspira a lamentar seja pela perda de nossos entes queridos, seja por nós mesmos, quando escreve: “Depois de chorar algum tempo, encontro alívio em expressar esses sentimentos profundos, consolo em saber que posso expressá-los – que eles estão ali, que posso pô-los para fora. Meus sentimentos me fortalecem, em vez de me enfraquecerem.

Depois de passar por esse tipo de lamentação, é mais fácil enfrentar o dia, tão mais fácil fazer o que tenho de fazer com minha família e meus amigos, ser carinhoso e estar pronto para o que vier a acontecer”.
Chorar é permitir a intensificação de uma emoção. Sua função é despertar compaixão, compreensão e proteção. Aquele que costuma reprimir o choro perde a oportunidade de criar intimidade com a sua própria emoção. Ser testemunha de si mesmo gera confiança e autoconhecimento. Uma vez que expressamos nossos sentimentos, descobrimos que não só somos capazes de suportá-los, como também que podemos nos desapegar deles quando nos damos por satisfeitos. Quem já não se disse com firmeza: “Agora chega de chorar”.

O choro é como uma válvula de escape para as descargas de hormônios que ajudam a restabelecer nosso equilíbrio interior. O fluxo lacrimal está relacionado a várias partes do sistema nervoso. A lágrima é uma resposta não só da glândula, mas do corpo como um todo. A repressão das emoções é extremamente nociva para o organismo.

Ao tentar segurar o choro, contraímos toda a musculatura, comprimimos os vasos sanguíneos, o estômago, o intestino, nos causando muitos males.
O corpo relaxado pensa melhor. Ao chorar, nos aproximamos da nossa dor e captamos melhor a mensagem que ela tem a nos passar.

Costumo diferenciar um choro quente de um choro frio.

O choro quente, por ser livre da autocrítica, faz derreter o coração frio, congelado pela dor. Ele não é depressivo e pesado. Ele nos torna pessoas mais meigas, pois nos ajuda a dissolver as mágoas e a relaxar à medida que nos sentimos sintonizados com as nossas emoções.


O choro frio é mental e muitas vezes está contaminado pelo sentimento de termos sido injustiçados. Seu objetivo é expressar a sensação de sermos vítimas, por isso é queixoso e lamuriante. Esse tipo de choro tende a entorpecer o sentimento, ao invés de nos permitir entrar em contato com ele. Enquanto choramos, arquitetamos uma vingança contra a injustiça da qual acreditamos ter sido vítimas. Assim, ele não nos traz alívio, ao contrário, nos deixa cada vez mais tensos. Ele surge como uma expressão vazia que aumenta a sensação de distanciamento de si e dos outros.

Alguns pacientes vêm à terapia para reaprender a chorar. Na maior partes das vezes são homens que sabem que precisam chorar, mas não choram há anos.


Enquanto evitarmos viver uma dor emocional, ela se transformará em vícios, comportamentos compulsivos, medos e manias que limitam nossa vida.
Como alerta Alessandra Kennedy em seu livro E a vida continua – como superar a perda de um dos pais (Ed. Gente): “O pesar revolve os mais profundos níveis da psique trazendo à tona questões não resolvidas, que silenciosamente sabotam a nossa vida.

Os sonhos nos informam sobre a presença dessas questões e fornecem orientação de como resolve-las. Quando ignorados, podem se repetir ou surgir de forma mais dramática, talvez transformando-se em pesadelos”.
Não adianta esperar que a dor “passe com o tempo”. O tempo atenua a dor, mas não a cura. Pois, a dor em si não purifica o sofrimento. Apenas a consciência do sofrimento é capaz de transformá-lo. Sofrer sem sabedoria é acumular mais confusão e dor.

Um novo olhar de autoreconhecimento começa a surgir quando passamos a acolher, com afeto e tempo, a fragilidade diante da dor da perda. Passamos a ter insights, frases que brotam naturalmente em nossa mente, expressando mensagens de nossa sabedoria intuitiva.


Certa vez, eu estava em silêncio no carro, presa em um grande engarrafamento no final do dia, quando me veio o seguinte pensamento: “Como você ainda está sofrendo esta perda? Isto é apenas apego ao que não está mais aqui”. Então repeti, mais algumas vezes internamente “não está mais aqui”, e foi quando tive o insight de que aquela dor era uma dor inútil. Devemos aproveitar esses raros momentos onde finalmente conseguimos unir, de fato, o pensamento ao sentimento! A partir de então senti que um certo peso havia sido eliminado de meu interior.
O luto é um processo que foge ao nosso controle e por isso pode durar muito mais tempo do que imaginamos. Mesmo depois de nos recuperarmos, ainda iremos, inesperadamente, nos encontrar em situações que fazem com que sintamos que caímos outra vez no vácuo da perda. Cada vez que nos erguermos, retornaremos mais inteiros.

Bel Cesar é terapeuta e dedica-se ao atendimento de pacientes que enfrentam o processo da morte.
Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções e Mania de sofrer pela editora Gaia.

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