terça-feira, 10 de agosto de 2010

Florbela Espanca





"Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!"





Interrogação

Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

Ó alma da charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize para onde eu vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra…
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!



Sem Remédio

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou…
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio, A mesma angústia funda, sem remédio, Andando atrás de mim, sem me largar!



Se tu viesses ver-me

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…



O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora são mais vagos… O teu olhar em mim, hoje, é mais terno… E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A vida, meu Amor, quer vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…



Versos de Orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além …
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
__O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
__São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.



Anoitecer

A luz desmaia num fulgor d’aurora,
Diz-nos adeus religiosamente…
E eu, que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui… outrora…

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora
Tenho bênçãos d’amor pra toda a gente!
Como eu sou pequenina e tão dolente
No amargo infinito desta hora!

Horas tristes que são o meu rosário…
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho…
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive…


Por medo de errar, não vou nem tentar!




Não entro na água, enquanto não souber nadar!

É óbvio que uma pessoa que diz isso, nunca conseguirá "aprender a nadar, enquanto não entrar na água". Esta expressão, manifesta a realidade de muitas pessoas, em alguns aspectos de suas vidas, em que agem dessa forma, e dizem: não posso realizar "determinada questão", pois ainda não sei fazer de forma perfeita. Só quando tiver total domínio sobre isso, é que poderei ir em frente.

O que quero dizer com isso, é que muitas pessoas, quando escolhem realizar algo, iniciam uma trajetória para isso acontecer e começam a estudar, pesquisar, criar projetos, planejar, enfim, se movimentam bastante nesse sentido e, apesar de todos esses movimentos, intenções e esforços, nunca conseguem, de verdade, colocar em prática aquilo que desenvolveram.

Reconhecem que tem bastante conhecimento, aptidão, domínio teórico, técnicas adequadas, sabem a forma com que devem atuar, porém nunca conseguem ultrapassar as barreiras da insegurança. Isto é fruto do perfeccionismo, da necessidade de fazer tudo de forma impecável, sem cometer o mínimo erro possível.

A estrutura de pensamento dessas pessoas, consciente ou não, é assim: "ou eu sei, perfeitamente, o que e como fazer, ou não dou um único passo, enquanto não me sentir totalmente pronto para tal". "E se, mesmo tendo total domínio teórico, eu não conseguir dominar perfeitamente na prática"? "Ah, não posso começar a colocar em pratica esse meu anseio, enquanto não me sentir totalmente preparado e seguro!

Para se libertar disso, a única coisa a ser feita, é correr riscos, confrontar a insegurança e os medos, e começar a dar os primeiros passos no sentido da realização.

Errou? Ok, faz parte! O problema não está em cometer erros, mas sim, no fato de a pessoa não se permitir errar e não aceitar seus erros.

Se estas pessoas se libertarem e se entregarem, aceitando a possibilidade de vir a "falhar", a probabilidade de cometer erros, é muito menor, pois o grau de tensão diminui. Tensão sempre gera mais falhas.

Quando realizamos algo, que intuimos que deveríamos fazer, significa que estamos conectados com o nosso propósito de vida. Mesmo assim, as pessoas continuam a sentirem-se inseguras pelas questões que expus acima.

Gostaria de lembrar, que todos nós temos um propósito de vida, que é determinado pelo nosso Espírito Imortal. Quando ele faz essa escolha, antes de sua encarnação, significa que se baseia em todas as capacidades, potenciais e dons que sabe que tem, e que se adequam ao tipo de personalidade humana que ele escolhe "ser", para essa determinada existência. Ele sabe também, que carrega toda a sabedoria necessária, para o cumprimento de seu propósito, mas que esta se manifestará aos poucos, à medida que for necessário, para cada passo que a personalidade encarnada der, em sua trajetória.

Diante disso, podemos falar aqui, sobre desenvolvimento. Nosso Espírito sabe que irá alcançar seu propósito, mas dentro de suas possibilidades, de acordo com suas limitações como ser humano manifestado. Isso quer dizer, que ele sabe que terá todo um processo de desenvolvimento, e que cometerá erros, até chegar ao ponto de estar bem alinhado com essa missão de vida. Então, está tudo perfeitamente certo, quanto ao fato de não dominarmos totalmente nossas habilidades e dons, pois estamos aqui, justamente para desenvolvê-los. E só os desenvolveremos, quando decidirmos ousar e correr riscos, e ir em frente, buscando superar todos os nossos obstáculos internos.

Nunca nos sentiremos 100% prontos, para realizar, seja o que for, que tenhamos escolhido fazer. A cada passo que damos, novos desafios se apresentam e mais insegurança poderá se manifestar, e perceberemos novamente que não nos sentimos totalmente prontos. Se, por isso, desistimos de avançar, viveremos frustrados. Mas, quando aprendemos a dar um passo de cada vez, de forma entregue, aceitando tudo o que vier a acontecer, estaremos sempre nos aprontando e realizando.

Desde o início, até o final de uma encarnação, estaremos em desenvolvimento. Aprendendo, praticando, errando, corrigindo, aprendendo mais, temendo e recuando, recuperando a segurança, e avançando... é um sem-fim de ciclos assim. Isto é ser um humano. Se desenvolvendo durante toda a sua existência.

Então, se uma pessoa assim, continuar a seguir o seu coração, encontrará muitas possibilidades de desenvolvimento e estará sempre se "aprontando", mas nunca com a exata sensação de estar totalmente pronta. Quando compreender isto e aceitar, se sentirá muito mais tranquila para dar os passos que forem necessários, sem uma auto-cobrança excessiva em termos de perfeição. Fará apenas aquilo que conseguir, quando e como puder, à medida que se sentir pronta.

Somos seres duais. Ou estamos nos sentindo totalmente inseguros, e não saímos do lugar, ou vamos para uma polaridade oposta e nos sentimos extremamente seguros e atuamos de forma incauta. Nada em excesso é saudável.

Desta forma, podemos entender, que os erros acabam sendo importantes para um processo de crescimento, pois eles evitam que as pessoas, quando estão com excesso de auto-confiança, entrem em um sentimento de superioridade, pois se assim se manifestarem, ficarão muito desatentas, achando que sabem tudo, e cometerão muitos erros. E isso as levará de volta à velha insegurança. Assim, um grau de atenção e cautela serão sempre adequados.

Portanto, o ideal seria as pessoas criarem coragem de, pelo menos, começarem a colocar os pés na água, depois entrarem lentamente, iniciando pela parte rasa da piscina, aprendendo devagar, mesmo que engulam bons goles de água no início. Quando começarem a se sentir mais seguros, mesmo que ainda não dominem algum nado, poderão se soltar mais, para irem além. Tudo a seu tempo.

Por Teresa Cristina Pascotto

Sobre a infidelidade conjugal




Navegando pela internet, deparei-me com um assunto que volta e meia eu abordo, por estar sendo, infelizmente, rotina em muitos relacionamentos. Para minha surpresa, os detetives particulares estão se especializando cada vez mais com ferramentas surpreendentes. Atenção aos infiéis que acham que enganam seus parceiros, pelas novidades que estão surgindo no mercado a palavra impossível de ser pego está cada vez mais longe.

Todos nós temos visões de um amor e um casamento perfeito no qual nunca machucaremos um ao outro, relevaremos as faltas, seremos honestos, abertos, exclusivos, encorajadores e fiéis.Como é possível que tais compromissos sejam abandonados, e homens e mulheres traiam-se mutuamente, e com o passar dos anos, cada vez mais? Pesquisas atuais nos dão alguns números referentes aos casos de infidelidade.

A revista Veja (Jan/2002) trouxe uma pesquisa que revelam que 47% das mulheres e 60% dos homens comprometidos são infiéis. Estas traições geralmente ocorrem nos primeiros 4 anos de relacionamento, e que as razões masculinas, comumente, estão ligadas ao sexo propriamente dito e a das mulheres a problemas de relacionamento. A mesma revista em outra pesquisa aponta que o fator considerado mais importante numa relação é a fidelidade, confirmada pela recente pesquisa entre mulheres no RJ (Nascimento, 2004). Contradição?!? Como podemos valorizar tanto a fidelidade, odiar a traição e ser complacentes com os casos extra-conjugais, que atualmente ocorrem aproximadamente, em 2 de cada 3 casamentos?

É inegável o dano psicológico para ambos – traído e traidor. Compreender com isto ocorre pode nos ajudar a perceber, antecipar e prevenir o processo que cedo ou tarde pode desenvolver-se em nossa vida.

Os casos na maioria das vezes reflete tentativas de satisfação de expectativas não atendidas, consciente ou inconscientemente, de natureza frustrante numa relação. Tal busca de atender necessidades internas no mundo externo é tola porque, na maioria das vezes, são questões que envolvem crises pessoais de auto-valorização e auto-estima.

Os casos ocorrem quando maridos e mulheres chegam num ponto de descrença total na mudança. Esta desesperança provoca uma dúvida imperativa de que o casamento não irá satisfazer importantes necessidades não resolvidas no contexto do casamento. A natureza desta necessidade direciona a pessoa a ser buscada , ou a que será permitida aproximar-se. Algumas necessidades são comumente identificadas como motivos para traições:

a) Necessidade de Conquista – Geralmente ligados a masculinidade, a conquista sexual está muito ligada ao poder de atração. No passado isto era mais comum, quando a iniciativa era a marca masculina e a passividade feminina. Para muitos homens mulher boa era a difícil. A relação de desafio era a que excitava, e no casamento ela deixaria de existir. Haveria muito pouco a se conquistar. Este recurso era e ainda é um eficiente suporte para a auto-valorização e dificilmente se conseguirá sobreviver sem ele; a não ser que ocorra uma revisão dos valores da masculinidade.

b) Necessidade de um Amante Jovem – Para alguns atingir a 3ª idade é algo ameaçador. Afinal toda nossa cultura é direcionada para os jovens. Mesmo com a ameaça do “tio Sukita”, enfrentar o envelhecimento pode ser doloroso. Durante este processo muitos deixam de se sentir atraentes, viris e sexy. O declínio das paixões sexuais, as insegurança e as necessidades de valorização que deixam de ser preenchidas em casa passam a ser buscadas em outros círculos. Todos nós precisamos aceitar as mudanças que ocorrem em nossas vidas e o envelhecimento é uma delas.

c) Necessidade de Vencer a Depressão – A depressão pode ser a base para muitos desdobramentos comportamentais, incluindo os motivos de infidelidade conjugais. Geralmente eles podem aparecer como meio de fuga do tédio, falta de objetividade na vida, perdas pessoais, desesperança, raivas e irrealizações. Quando tudo vai mal, seja lá qual for a fonte real da tristeza o companheiro é sempre o pólo das insatisfações. Ele é visto como o principal responsável pela felicidade do casal. Os casos ocorrem como meio de trazer excitação e prazer temporário, ou até como mesmo retaliação inconsciente contra o cônjuge.

d) Necessidade de evitar intimidade – No relacionamento conjugal necessariamente temos que lidar com a questão da dependência. Ela exerce parte fundamental no vínculo matrimonial. Isto pode ameaçar. Proximidade e intimidade nos torna vulneráveis, depender totalmente do outro pode trazer risco insuportável. Pode ocorrer, sem mesmo estarmos conscientes disto, de mentalmente fazermos uma “divisão de papéis”. Alguns são destinados ao nosso cônjuge outros direcionados para outras pessoas fora do casamento. Muitos casais estão famintos por aproximação, mas não crêem que seus companheiros conseguirão saciá-los em suas necessidades. Na realidade não querem que eles o façam. Um marido ou uma mulher pode representar determinada figura incongruente com outra imaginária. Por ex. ser uma boa mãe está dissociado de ser uma boa amante. Ser um pai responsável entra em choque com as fantasias sexuais alimentadas. A razão desta fragmentação geralmente vem de um modelo familiar distorcido. Esquecemo-nos que homens e mulheres são destinados a relacionamentos completos. Quando uma necessidade vital, como a dependência é retirada, será buscada em outro lugar, fora do casamento.

e) Necessidade de dupla identidade – Quando laços que unem o casamento são por demais aprisionadores (tipo obrigatórios), geralmente ligados a questões religiosas e morais. Pode ser que o homem ou mulher sinta necessidade de viver um outro tipo de vida furtiva. É o relacionamento mais enganador e hipócrita que existe. Finge-se “pelo bem dos filhos”, até que as criança cresçam”, “o que os outros vão pensar”. O outro exerce uma função simbólica. Não existe intimidade,pelo contrário, só distanciamento e superficialidade. A excitação e paixão reais ocorrem em outro lugar , com outra pessoa. Na maioria das vezes , estão satisfeitos, pensam que não estão machucando ninguém e recebem o melhor dos dois lados. A permanência desta fragmentação poderá gerar sentimentos ambivalentes e questionamentos internos , afetando a produtividade cotidiana.

A fim de manter encoberto o relacionamento extraconjugal o traidor reagirá com dissimulação e negação. Este esforço de guardar segredo será como um espinho na carne, sempre indicando que há algo de errado.

Pode ocorrer de existir culpa, que nem sempre é consciente, manifestando-se em irritabilidade, discussões, depressão e até mesmo falta de cuidado consigo mesmo (autodestruição). Alguns não suportam o peso das mentiras e falsidades e acabam contando tudo. O efeito sobre o cônjuge é devastador: choque, raiva, dor, dúvida, perturbação mental, confusão, depressão, difícil, é dizer se a ferida será cicatrizada e a confiança restabelecida. De qualquer forma resgatar o relacionamento poderá representar um esforço e coragem gigantescos. A cura leva mais tempo do que se espera , mas menos tempo do que se teme. O caminho da reestruturação passa pelo diálogo honesto e pela busca da mudança. Do mesmo modo a separação: pelo respeito dos limites e individualidades, direito ao luto e realinhamento de conduta. Feito isto o equilíbrio finalmente poderá ser estabelecido.

Por Dr. Carlos Henrique - Detetive especializado em diversos assuntos, confiram no site http://www.detetiveparticular.hpgvip.ig.com.br/index.htm

domingo, 8 de agosto de 2010

Incoerência gera estresse


Como vimos no artigo anterior, Como tornar-se próximo de si mesmo e dos outros, a sinceridade consigo mesmo é uma condição imprescindível para superarmos o desconforto de lidar com nossos sentimentos antagônicos. Mas o fato é que apesar de muitas vezes nem nos darmos conta do quanto estamos sendo incoerentes conosco mesmos, e, portanto, com os outros, o nosso cérebro sabe que sim e reage para se defender contra tais desajustes.

O cérebro tem um radar para a insinceridade! Ele não reage bem às informações incoerentes. Por exemplo, quando escutamos uma pessoa nos dizer algo racionalmente coerente, mas seu tom de voz não condiz com a sua fala, sentimos um desconforto imediato! Aliás, o mesmo também ocorre quando somos incoerentes conosco mesmos. Quando racionalmente decidimos algo, mas emocionalmente não estamos convencidos desta idéia.


Conversando sobre esta questão com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz, ele explicou que a incoerência faz disparar a amígdala cerebral que, por sua vez, leva-nos a um estado de alerta que, tornando-se constante, gera medo e estresse.


A amígdala cerebral, como explica Dr. Sergio, é como um radar no cérebro que nos chama a atenção para o que pode ser novo, surpreendente ou importante e que, portanto, necessita de investigação. Quer dizer, ela coordena os sinais de advertência no cérebro e provoca a reação de luta, fuga ou inércia diante do perigo.

Quanto maior a vigilância gerada pela amígdala, maior nossa atenção para as dicas emocionais transmitidas por outras pessoas. Até aí tudo parece ir bem. Mas, o ponto é que, à medida que esse foco torna-se constante e intensificado, ele aumenta o contágio das emoções alheias, ou seja, nos tornamos suscetível e, portanto, vulneráveis, às emoções de outra pessoa. Quando elas se referem às emoções hostis, mal-humoradas ou de raiva, causam danos que nem precisamos exemplificar...

A questão-problema é que nosso cérebro lê e registra as emoções em voz baixa... Precisamos ouvi-las para decifrá-las e direcioná-las!


Quem nos ajuda a realizar esta façanha é o psicólogo americano Paul Ekman. Ele fez uma pesquisa incrível sobre as micro-expressões faciais: catalogou 3 mil combinações de movimentos musculares de rosto e concluiu que elas são universais.


O seu trabalho gerou o seriado
Lie to Me (Engana-me se puder – terças-feiras, às 22h, na FOX). É um programa ótimo para aprendermos a ter consciência destas expressões incoerentes. Por exemplo, ele explica que se uma pessoa ri durante uma conversa sem mexer os olhos, o nosso cérebro sabe que o seu riso não é verdadeiro.

No seu site www.paulekman.com ele tem um treinamento para aprendemos a ler as microexpressões faciais. Pelo menos, assim podemos pelo menos avisar ao nosso cérebro que elas são de fato incoerentes, e, portanto, cabe à nossa racionalidade e inteligência emocional decidir o que fazer com elas!


Continuação da matéria anterior escrito por Bel Cesar.

Como tornar-se próximo de si mesmo e dos outros



Por que será que muitas vezes nos defendemos antes mesmo de sermos atacados? Porque estamos sobrecarregados de sentimentos reativos: sem nos darmos conta, aprendemos a evitar sentimentos que nos despertem medo e dúvida. Mas evitá-los não faz com que eles vão embora. É como se tivéssemos nos tornado alérgicos a nós mesmos... O antídoto para curar esse processo inflamatório surgirá na medida em que lentamente aproximarmo-nos de nós mesmos, de modo sincero e real.

Aproximar-se de nós mesmos significa reconhecer nossa totalidade. Ou seja, quando nos aproximamos de nossas feridas emocionais, assim como de nossas habilidades e recursos para enfrentá-las, entramos num processo tanto de enfrentamento, como de superação. Lama Gangchen Rinpoche nos fala que desta maneira podemos erradicar a violência interior, parar de lutar contra nós mesmos.

Por exemplo, quando estamos diante de uma escolha afetiva -decidir ou não- unir-se maritalmente com alguém. Sabemos que esta decisão irá representar o início de um novo capítulo de nossa vida, envolvendo um roteiro de dramas e soluções. Um lado nosso diz que sim e outro não. Qual está com razão? Qual está a nosso favor?
Este é um momento em que teremos que nos aproximar de ambas as partes para escutar com sinceridade o que elas têm a para nos dizer. Uma vez ouvidas, elas estarão prontas para conversar entre si e fazer acordos de paz.
Mas, em geral, saltamos essa etapa de escuta interior porque evitamos o desconforto de lidar com nossos sentimentos antagônicos.

Somos amigos de nós mesmos quando nos aproximamos de nossos sentimentos sem reagir a eles. Assim como quando recebemos ajuda de um bom amigo: inicialmente, ele nos escuta sem nada nos dizer, depois introduz sua percepção a respeito do conflito em questão e, por fim, juntos encontramos um modo de conseguirmos dar o salto: encontrar um novo olhar com o qual recuperamos força para seguir adiante.

A questão que nos impede de sermos bons amigos de nós mesmos é que negamos nossos sentimentos devido ao hábito de interpretá-los, antes mesmos de conhecê-los!
Desde crianças, fomos ensinados a pensar nossos sentimentos ao invés de senti-los. Fomos incentivados a sermos racionais e a ter lógica e bom senso.

Obviamente, se estivéssemos em constante harmonia com nosso mundo emocional, esta seria uma atitude acertada diante de nossos processos de decisão afetiva. Mas, em geral, não é bem assim que ocorre. Tomamos decisões baseadas na lógica, porém precipitadas... Diante da inabilidade em lidar com o desconforto dos sentimentos antagônicos, passamos por cima deles. Quando agimos assim, nossas decisões não são escolhas, mas sim, mecanismos de defesa para não sentirmos nossos sentimentos. É como sair do banho com frio e colocar qualquer roupa só para não sentir frio. Depois, quando nos deparamos mal vestidos, temos que voltar atrás e escolher o que vamos vestir.

Queremos e não queremos um monte de coisas ao mesmo tempo! Creio que aprendemos cedo demais uma premissa sobre nós mesmos que não é tão verdadeira quanto pensávamos: a de que somos seres mamíferos racionais!

Será que somos tão racionais assim? Afinal, quando nos deparamos com emoções mais fortes nos surpreendemos com o modo como elas nos dominam a ponto de perdermos a capacidade de raciocinar.

Creio que já aprendemos a pensar, agora nos falta aprender a sentir. Se não, correremos o risco de nos tornarmos excessivamente racionais, a ponto de não sabermos mais o que, de fato, estamos sentindo.

Desta forma, criamos uma certa distância com relação a nós mesmos. Estranhamente, sentimos esta distância como uma barreira que nos impede de nos harmonizarmos internamente. Quem não conhece a sensação de não conseguir se sentir em sintonia consigo próprio?

Isto se torna cada vez mais evidente quando nosso mundo interior vive num contexto muito diferente do mundo exterior. Isto é, aparentemente estamos de acordo com os eventos externos, mas internamente vivemos num outro mundo. O contrário também ocorre quando vivemos intensamente nosso mundo interno, mas dissociados dos eventos externos.

A questão é: seja longe de nós mesmos ou longe de nosso mundo externo, uma hora teremos que lidar com ambas realidades.

Na medida em que, por uma razão ou outra, os sentimentos pouco sentidos vêm à tona temos a oportunidade de nos aproximarmos de nós mesmos. Esta aproximação nos traz um sentido natural de pertencimento, de continuidade, ou seja, de poder seguir em frente sem barreiras.

Por isso, ao contrário do que se possa pensar, sentir-se próximo a si mesmo não é uma atitude egocentrada nem egoísta, mas, sim, de autoconhecimento. Afinal, quanto mais estivermos à vontade conosco, menos reativos seremos! Em outras palavras, mais relaxados e serenos para lidar com as reações alheias.

Quanto mais formos reativos a nós mesmos, menos capacidade teremos para nos aproximar de nossos sentimentos. Sentir os sentimentos é mais do que pensar sobre eles. Senti-los significa aproximar-se de si mesmo com amizade, abertura e gentileza.

Não reagir emocionalmente é um sinal de maturidade e equilíbrio. Mas, para tanto, é preciso sentir a tensão interna e dissolvê-la gradualmente. Se não notarmos a pressão interna em seu estado inicial, ela irá crescer até explodir por não encontrar uma via de escape!

Lama Gangchen Rinpoche nos alerta do quanto é preciosa esta sensação de proximidade em todos os relacionamentos, sejam eles de médico e paciente, pais e filhos, entre irmãos, amigos, ou entre instituições e povos de diferentes raças.
Rinpoche ressalta que sentir-se próximo não quer dizer sentir-se íntimo. Mas sim ser tocado pela existência do outro. Desta forma, sentimos naturalmente empatia por ele e disponibilidade para ajudá-lo. Aquele que sente este tipo de proximidade não sente solidão.

Muitas vezes, quando estamos sós, buscamos instintivamente o contato com a Natureza para nos consolar.

Lama Gangchen enfatiza que este sentimento de proximidade com a Natureza está estreitamente vinculado com a nossa capacidade de envolver-se afetivamente com as pessoas. Aliás, diz ele, que há uma conexão direta entre o distanciamento, que vivemos hoje em dia da Natureza morando na cidade, com o aumento de conflitos nos relacionamentos afetivos.

Neste sentido, se quisermos melhorar nossos relacionamentos afetivos, precisamos dedicar mais tempo para ficar em contato direto com o vento, o fogo, a terra, a água e o espaço. Lugares abertos, como a vista do horizonte em alto mar ou do topo de uma montanha, são experiências que quando vivenciamos guardamos como tesouros na memória de nosso coração.

Quanto mais próximos nos sentirmos da Natureza, mais respeito e amor teremos por ela. Quando mais próximos nos sentirmos uns dos outros, mais e alegria e gratidão teremos por estarmos vivos, perto uns dos outros.


Bel Cesar é psicóloga e pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano.Trabalha com a técnica de EMDR, um método de Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares. Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções e Mania de sofrer pela editora Gaia.