domingo, 14 de dezembro de 2008

Além da luz e da sombra - sobre a arte do morrer, do viver e do ser


No coração da sombra existe a luz. E no coração da luz existe a sombra. A experiência do ser é a experiência do círculo que mantém os dois juntos. ...O momento de repouso que fazemos é semelhante à nossa respiração. O inspirar e o expirar é uma não-dualidade. Se só inspiramos, sufocamos, se só expiramos, morremos. O sopro contem a inspiração e a expiração e o que é verdadeiro em nossa vida fisiológica é também verdadeiro em nossa vida psicológica.

Tornar-se adulto é passar da idade dos contrários para a idade do complementar, para um outro modo de olhar as coisas. Se alguém diz algo contrário ao que penso e sou capaz de entender esse contrário como complementar, vou crescer em consciência e em compreensão. Se em vez de rejeitar ou negar alguns elementos de minha vida obscura, sou capaz de acolhê-los, torna-me-ei mais inteiro.

A sombra é o que dá relevo à luz. Quando amamos alguém, um dos sinais de amor verdadeiro é que amamos os seus defeitos. E´fácil amar os defeitos de nossos filhos. E´difícil amar os defeitos dos adultos ou de nossos cônjuges. Esse amor de que falamos não significa complacência, não é dizer ao outro que me agrada o que ele tem de desagradável pois isso seria mentira e hipocrisia. O amor de que falamos é dar ao outro o direito de ser diferente. E´dar a ele o direito de experimentar sua liberdade. De experimentar em mim mesmo esta capacidade de amar o que é amável e de amar, também, o que não é amável. Dessa maneira passaremos, de uma vida submissa para uma vida escolhida. (p.83)

(...)

...Nossa vida vale pelo olhar que é posto nela. Os olhares de juiz nos enchem de culpa. Há olhares benevolentes, misericordiosos e ao mesmo tempo, justos. Precisamos desses olhares porque todos nós temos necessidade de verdade e de sermos amados. Por vezes, os olhares que encontramos são muito amorosos, muito doces, mas falta a eles a exigência desta verdade. Outras vezes, os olhares que se colocam sobre nós são plenos de verdade e justiça, mas falta a eles a misericórdia e o amor.


... Há um olhar integral do qual temos necessidade a fim de nos vermos tal e qual somos. Porque a verdade sem amor é inquisição e o amor sem verdade é permissividade.
Estas são reflexões gerais e cada um pode entrar em particularidades que lhes são próprias, sentindo se existe em sua vida alguém que pode suportar sua sombra sem julga-la, apesar de não se mostrar complacente com ela. Creio que todos nós temos a necessidade, pelo menos uma vez em nossas vidas, de um tal olhar pousado sobre nós. Nesse momento não teremos mais necessidade de mentir, de nos iludirmos, de usarmos máscaras. Podemos mostrar nossa verdadeira face, nosso verdadeiro corpo, com seus desejos e seus medos. Podemos mostrar nossa verdadeira inteligência com seus conhecimentos e suas ignorâncias. Mostrar-se com o coração verdadeiro, capaz de muita ternura e também capaz de dureza e indiferença. Mostrar-se como não-perfeito, mas aperfeiçoavel. Sob este olhar nossa vida pode crescer. Porque o olhar que nos julga e nos aprisiona em uma imagem faz-no ficar parados, enquanto que o outro olhar nos impulsiona a dar um passo adiante desta imagem que os outros têm de nós.(p.100)

Jean-Yves Leloup, doutor em Psicologia, Filosofia e Teologia, escritor, conferencista, dominicano e depois padre ortodoxo, oferece através dos seus livros, conferências e seminários um aprofundamento dos textos sagrados, assim como uma abordagem e uma reflexão extremamente ricas sobre a espiritualidade no quotidiano graças à uma formação pluridisciplinar de rara complementaridade. Membro da organização das Tradições Unidas, doutor honoris causa e ciências da Universidade de Colombo (Sri Lanka)

O perdão


Este texto de Jean-Yves Leloup é maravilhoso, um verdadeiro ensinamento, leiam com muita atenção.

O perdão, quando bem compreendido, é um instrumento de cura. Freqüentemente ficamos doentes porque não perdoamos e o rancor e a cólera nos corroem o fígado e os rins. A questão é como manter juntos o perdão e a justiça, (...) o olho da verdade e o olho da misericórdia.

Creio que não devemos perdoar muito rápido. É necessário, antes de perdoarms, que expressemos o sofrimento pelo que nos foi feito e a isso chamo justiça. O sinal-da-cruz, tal como era feito nos doze primeiros séculos de nossa era, expressava bem esse sentimento. Começava-se por uma linha vertical, da testa ao peito, em seguida levava-se a mão ao ombro direito e depois ao esquerdo (atualmente faz-se o contrário), simbolizando a passagem da justiça para a misericórdia. Começando sempre pela justiça, exigindo que fosse reconhecido o mal que foi feito, o inaceitável de certas situações e de certas violências. Portanto, o pedido de justiça é essencial. Mas é essencial, também, ir além da justiça, em direção à misericórdia, em direção ao perdão, em direção ao lado que é o lado do coração.

O que é o perdão? O perdão é não aprisionar o outro nas conseqüências negativas de seus atos. É não nos aprisionarmos ou aprisionarmos o outro no carma. O perdão é a própria condição para que nossa vida continue a ser vivível. Se não perdoarmos uns aos outros, a vida vai se tornar impossível de ser vivida.

(...) Como fazer para que este perdão se torne algo verdadeiro? Platão dizia: “Aquele que tudo compreende, tudo perdoa”. Aquele que se conhece a si mesmo, com suas ambigüidades, pode compreender o outro em suas sombras. Portanto, inicialmente, o perdão pode ser uma questão de inteligência, de compreensão. Perdoar você significa que eu o compreendo, mas não quer dizer que (...) o que você fez é bom. Compreendo que você é um ser humano, que é capaz de me enganar como eu próprio faria se, provavelmente, estivesse nas mesmas condições.

A atitude de Cristo aos que queriam lapidar a mulher adúltera é: “Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Lembrem-se como aos poucos todos se retiram, do mais velho ao mais jovem. Nesse caso Jesus se serve da Sagrada Escritura, não para mostrar aos outros como eles são pecadores, mas para fazê-la de espelho onde eles podem ver suas fraquezas, suas falhas e compreender as dos outros, não os aprisionando nas conseqüências negativas de seus atos.

Além de perdoar com a cabeça é preciso perdoar com o coração e, vocês sabem, o corpo é o último que perdoa. Se alguém lhes fez mal, se lhes causou sofrimento, vocês podem tê-lo perdoado com a “cabeça”, tê-lo compreendido com o coração, pensar que o passado passou. Entretanto, quando essa pessoa se aproxima, seu corpo se crispa e se enrijece mostrando bem que ele ainda não perdoou, que muitas memórias estão ainda bem guardadas.

Creio que é verdadeiramente uma graça quando nos encontramos perto de alguém que nos tenha feito mal e sentimos nosso corpo calmo, nosso coração límpido. Podemos dizer que, verdadeiramente, estamos curados. Por isso, creio que o perdão é uma prática de cura.

No Pai-nosso se diz: Perdoai-nos do mesmo modo como perdoamos. Como se o dom da vida só pudesse circular em nós dependendo de nossa capacidade de perdão. Se não perdoamos ficamos prisioneiros, bloqueados em uma situação, em um rancor, e a vida não pode circular.

Perdoar não é fácil...

Quando eu era jovem padre e morava no interior da França, todos os domingos levava uma senhora paralítica à missa. Ela era portadora de esclerose em placas. Um dia contou-me do ódio que nutria pela mãe porque a tinha impedido de casar-se com o homem que amava, e, apesar disso, passara a vida inteira cuidando da mãe, ocupando-se dela. Apesar de exteriormente comportar-se como uma mulher respeitável e admirável, dizia-me que em seu interior só havia raiva. A dureza de seu coração impregnara seu corpo, transformando-o em corpo rígido e paralisado. Assim, as doenças psicossomáticas têm, às vezes, uma origem espiritual.

Disse a esta senhora: “Já que você é cristã pode perdoar sua mãe”. Tornou-se encolerizada e, com uma raiva muito densa e muito íntima, respondeu-me: “Não, não, jamais a perdoarei. Minha mãe impediu-me de viver, o que sinto por ela é um veneno que levarei ao túmulo”. Neste momento compreendi o meu erro e lhe disse: “Você tem razão. O que você viveu é imperdoável. Você não pode perdoar quem a impediu de viver. Mas pense, creia, o Cristo que existe em você pode perdoá-la”. Atualmente eu lhe diria: “O ego não pode perdoar: Não se deve tentar perdoar com o ego. Entretanto, talvez o self possa perdoar. Talvez haja dentro de nós uma dimensão maior que nós mesmos, que pode compreender e perdoar”. Passaram-se cinco longos minutos. Em dado momento vi uma lágrima correr pela face daquela senhora. Ela chorou, chorou muito. Levantou-se da cadeira de rodas e saiu andando de seu quarto. Há mais de quarenta anos não chorava, há mais de dez anos não andava. Esse é o milagre do perdão.

Muitas vezes, está acima de nossas forças perdoarmos a partir de nosso pequeno ego. Se disséssemos “eu te perdoo”, seríamos hipócritas, pois nosso corpo e nosso coração não conseguem perdoar. Porém, podemos abrir-nos a uma dimensão mais vasta que nós mesmos e então o perdão pode chegar.

O perdão não é humano, é um ato divino. Quando Jesus perdoa, seja a mulher adúltera, seja Míriam de Magdala, seja um “colaborador” como Zaqueu, os fariseus que o cercam se perguntam: “Quem é este homem que perdoa? Pois só Deus pode perdoar”.

Assim, é preciso lembrar que, cada vez que perdoamos depois de termos pedido justiça, acordamos para uma dimensão divina de nós mesmos. O perdão é um exercício de divinização onde o humano se torna divino. Continuando humano, temos que reclamar justiça e, quando for possível, dizer o que foi mau ou destrutivo para nós e pedir uma reparação. Também somos capazes de misericórdia e de perdão. Portanto, é preciso que mantenhamos juntas a justiça e a misericórdia. São dois olhos, às vezes, estrábicos. Podemos esquecer a justiça e nosso perdão ser superficial, podemos esquecer o perdão e partimos para uma justiça inquisitorial.


Jean-Yves Leloup, doutor em Psicologia, Filosofia e Teologia, escritor, conferencista, dominicano e depois padre ortodoxo, oferece através dos seus livros, conferências e seminários um aprofundamento dos textos sagrados, assim como uma abordagem e uma reflexão extremamente ricas sobre a espiritualidade no quotidiano graças à uma formação pluridisciplinar de rara complementaridade. Membro da organização das Tradições Unidas, doutor honoris causa e ciências da Universidade de Colombo (Sri Lanka), Jean-Yves Leloup ensina na Europa, nos Estados Unidos e na América do Sul em diferentes universidades e institutos de pesquisa em antropologia fundamental. É autor de mais de cinqüenta obras, além de ter comentado e traduzido os evangelhos de Tomé, Maria de Magdala, Felipe e João. Ele participa igualmente de vários encontros entre as diversas tradições.

Necessidade neurótica



Necessidade neurótica de poder

O eu dos quem têm essa necessidade é controlador, dominador. Um eu forte exteriormente, mas frágil interiormente. Quando essas pessoas assumem um cargo de poder, os monstros do seu inconsciente entram em cena produzindo comportamentos autoritários e destrutivos.

Para elas, o poder acaba se tornando mais importante do que a vida. Tolhem a liberdade dos outros, não respeitam os seus espaços. Sentem-se ameaçadas por pessoas inteligentes e têm medo da competição, pois a perda do poder as asfixia. Em alguns casos vivem com a paranóia de que alguém sempre está querendo derrubá-las.

Ao longo da história, os ditadores sempre eliminaram mentes brilhantes por se sentirem ameaçados. Ao invés de usar o poder para promover o debate, o usaram para silenciar vozes.

Jornalistas com necessidade neurótica de poder escondem-se atrás das reportagens ou artigos para expressar seu sectarismo. Advogados e médicos usam seu status para constranger clientes e funcionários.

São deuses que não respeitam a dor e o potencial dos outros. Silenciam filhos, seus cônjuges, seus amigos e até eles mesmos, pois perdem a espontaneidade e a suavidade da vida. Embora não se dêem conta, são famintos de diálogos.

Executivos com necessidade neurótica de poder não suportam ser contrariados. Não ensinam a pensar, mas a obedecer. São centralizadores e individualistas. Valorizam o culto à personalidade, querem não apenas ser o centro das atenções como os donos da situação.

Não percebem que quanto mais lutam desesperadamente pelo poder mais o perdem, pois não têm controle sobre seus impulsos, suas idéias paranóicas, suas inseguranças.

O eu dessas pessoas precisa ser equipado para que se tornem capazes de reeditar a sua história. Precisam reconhecer o valor de cada ser humano, inclusive o próprio valor, pois a necessidade neurótica de poder é contra o princípio do prazer, contra a criatividade e contra a liberdade interior. Precisam desenvolver o eu a ponto de perceberem que os fracos controlam, mas os fortes promovem a inteligência; os fracos anulam os diferentes, mas os fortes aprendem com eles.

Necessidade neurótica de estar sempre certo

O eu dos que têm essa necessidade é perfeccionista, não admite suas falhas, não reconhece seus defeitos e evita entrar em contato com a própria realidade. São pessoas péssimas para desculpar-se, mas ótimas para se defender. Usam todos os argumentos possíveis e imagináveis, até os ilógicos e infantis, ara provar que suas idéias e atitudes são corretas. Não sabem, mas têm fome de humildade.

Um eu que se defende excessivamente e se esconde atrás dos seus argumentos são sabe o quanto é agradável e reconfortante admitir as próprias imperfeições. A compulsão neurótica de estar sempre correto torna-se estressante e insustentável.

Essas pessoas nem sempre são agressivas no tom de voz e nas palavras, mas na maneira de ser. Para se defender neuroticamente seus comportamentos desvalorizam os argumentos dos filhos, cônjuges, alunos, colegas de trabalho, deixando um rastro de dor por onde transitam.

Provavelmente a maioria das pessoas nas sociedades modernas tem essa necessidade doentia nos mais diversos níveis. Com frequência estamos mais perto delas do que gostaríamos. Quem muito se angustia, se inquieta, sente-se desconfortável quando corrigido e criticado, possui em diversos graus essa característica doentia.

Entre as principais vítimas dessa neurose encontram-se alguns intelectuais. Exalam informações por todos os poros, mas falta-lhes sabedoria para admitir seus erros. São pessoas difíceis de conviver. Quando confrontadas, algumas saem da esfera da mansidão e partem para a agressividade.

Os que não possuem essa necessidade doentia admitem suas falhas e incoerências, conseguem aprender com seus subalternos, por mais humildes que sejam, respeitam cada ser humano pelo que é e não pelo que tem.

Em contrapartida, os dominados por essa necessidade são intocáveis. Não aprendem com pessoas simples, mas fingem aprender com as mais experientes. Sofrem, frustram-se, choram, mas não absorvem lições importantes. Repetem seguidamente os mesmos erros.

A necessidade neurótica de perfeição leva algumas pessoas a serem obsessivas, a supervalorizarem esquemas, detalhes, listas, organização. Não se dão conta de que o excesso de preocupação com regras e esquemas bloqueia a criatividade e a ousadia. O detalhismo e a cautela excessivos travam a inteligência e truncam projetos.

Essas pessoas precisam desenvolver um eu que tenha consciência de si mesmo e de seus papéis fundamentais. Um eu transparente que olhe para dentro, que não tenha medo das próprias “loucuras”, que seja comprometido com a saúde psíquica e não com a imagem social.

Precisam desenvolver acima de tudo um eu consciente de que o perfeccionismo nos habilita a lidar com máquinas e não em seres humanos, pois somos seres imperfeitos vivendo em sociedades imperfeitas.

Parafraseando o Sermão da Montanha, bem-aventurados os que não se auto-abandonam, os que têm ricos encontros com seu próprio ser, pois deles é o reino da serenidade e do prazer de viver.

Felizes os que humildemente olham para o espelho da sua psique, que descobrem que não são deuses, que procuram superar a necessidade doentia de poder, de controlar os outros, de se fixar em preocupações, pois deles é o sabor inefável da liberdade e o paladar inexprimível da sabedoria.

Texto extraído do livro Os segredos do Pai-Nosso 2

Aprendendo a superar os conflitos humanos – Augusto Cury – Ed. Sextante.

Augusto Cury é medico, psiquiatra, psicoterapeuta e escritor; Pós-graduado em Psicologia Social, desenvolveu a teoria da Inteligência ou Psicologia Multifocal, sobre o funcionamento da mente e o processo de construção do pensamento.

A grande obra-prima

Viver é ser o artista da autocriação.

Jacqueline Small

Você é o criador da maior obra do universo, sua vida. A única pessoa que pode dar a sua forma final é você mesmo. No passado, seus pais o criaram com a ajuda de avós, professores e todo o contexto que foi sua infância. Eles o criaram do jeito deles, e fizeram o melhor que puderam. O ruim é quando você simplesmente mantém o que eles fizeram.

A maioria das pessoas é escrava do passado. Vive como se as situações e soluções do passado se repetissem todos os dias, e não se transforma como deveria. Uma pergunta para pensar:

-Você seria diferente se tivesse tido outros pais ou outra infância?

Provavelmente, você dirá:

-Sim, se eu tivesse tido um pai mais compreensível, seria uma pessoa mais relaxada. Se tivesse tido uma infância mais tranquila, poderia estar vivendo em paz.

Sabe o que significa essa resposta? Que você é escravo de seu passado e ainda não conseguiu se libertar dele. Está na hora de você ser você! Está na hora de se libertar dos relacionamentos do passado, da infância, da adolescência, da juventude. Você tem de ser você, independentemente de seus pais e de sua infância. Se você não foi amado, procure um jeito de encontrar amor. Se você era inseguro, descubra a coragem dentro de si. Não deixe que o passado defina sua vida!

Aliás, não deixe nem que o presente defina sua vida. Pessoas milionárias podem ficar pobres e pessoas pobres podem virar milionárias. Você pode estar vivendo um grande amor, acomodar-se e ficar sozinho. O presente não decide sua vida. O que decide sua vida é seu comprometimento com seus projetos de vida.

Neste momento, você pode estar abrindo mão de muitos de seus sonhos. A grande pergunta é: “Quais desses sonhos farão falta?”

Boa parte das pessoas vivem abrindo mão de sonhos. Quer ver se isso está acontecendo com você? Faça uma lista dos sonhos de sua juventude e escreva todos num papel. Agora quero que você analise essa lista. Quais desses sonhos efetivamente estão fazendo falta para você? Depois que tiver a resposta, corra atrás desses sonhos porque certamente são eles que darão significado à sua vida.

Talvez um de seus maiores sonhos tenha sido viver um casamento gratificante, um relacionamento em que os dois pudessem crescer, mas hoje você está sozinho. O que é preciso fazer para que daqui a vinte anos você não se arrependa, de novo, de ter deixado esse sonho para trás?

Muita gente se orgulha de sua capacidade de abrir uma empresa ou escrever um poema, mas se esquece de criar a si própria com o mesmo cuidado que coloca suas metas. São pais que querem que os filhos realizem projetos que eles não conseguiram e que não percebem que a única pessoa que realmente podemos criar somos nós mesmos. Você é a pessoa que você cria...Se não está gostando do resultado, mude!

A criação de si próprio é o melhor combustível de sua

evolução. É a melhor vacina contra a acomodação.

Seu crescimento lhe dará energia para continuar a percorrer o caminho e ser o grande artista da sua vida. Cada trabalho do artista fornece motivação para seu aprimoramento.

Somos o que repetidamente fazemos.

A excelência, portanto, não é um feito,

mas um hábito.

Aristóteles

Texto extraído do livro O Sucesso é ser feliz – Roberto Shinyashiki – Ed Gente

Roberto Shinyashuki é psiquiatra, Conselheiro da Associação dos ex-alunos da MBA-USP, entidade sem fins lucrativos que tem por objetivo a profissionalização do Terceiro Setor. Dedica grande parte de seu tempo às causas sociais e é autor de diversos livros como Liderança em Tempos de Tempestades, Pais e Filhos – Companheiros de Viagem entre outros.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Como colocar um fim a dor emocional


Podemos localizar em nossa vida fases em que uma dor emocional permanece instalada em nós por um longo período – um ano e meio, pelo menos. Vamos dormir sabendo que, ao acordar, sentiremos a mesma dor no peito. Geralmente isso ocorre quando vivemos algo maior do que nossa capacidade de elaborar.

A meta de transformar o sofrimento em autoconhecimento faz com que nos sintamos íntimos da nossa dor, tão próximos dela que, às vezes, sentimos pena de deixá-la. Eu me lembro claramente da primeira vez que senti nostalgia por perceber que uma dor emocional estava para acabar. Cheguei a perguntar para Gueshe Sherab: ”Será que sem essa dor continuarei aprendendo tanto quanto aprendi ao senti-la?”. Ele riu e me respondeu: “Você não precisa chamar a dor para evoluir, pode ter certeza que sempre haverá sofrimento suficiente para aprender algo com ele. Quando a mente não está sobrecarregada com uma dor intensa, pensa melhor”.

Se estivermos sofrendo pela mesma dor há muito tempo, devemos identificar o momento de nos desapegarmos dela. É necessário sentirmos a dor apenas enquanto ela nos ajudar a aprender mais a nosso próprio respeito, ou seja, enquanto ela representar uma forma de ampliarmos a visão acerca de nós mesmos.

Parece óbvio que ninguém deseja se apegar à dor. Na realidade, porém, desapegar-se dela talvez seja um de nossos maiores desafios.

Aceitar a necessidade de abandonar um padrão emocional, mesmo que ele implique sofrimento, pode ser tão difícil quanto aceitar a morte de um ente querido, pois sentimos como se perdêssemos algo de nós mesmos. Em ambos os casos devemos aprender a fazer o luto. Como escreve Christine Longaker: “O processo de recuperação da nossa dor pode nos ajudar a viver de maneira mais plena e apreciar cada dia, e cada pessoa, como uma dádiva insubstituível. No luto, devemos por fim nos desapegar da pessoa que se foi, no entanto, podemos manter o seu amor conosco. Não somos abandonados na perda; podemos nutrir nossas memórias de amor, e permitir que o amor continue fluindo na nossa direção”(1). Do mesmo modo, quando nos separamos de um padrão emocional dolorido com o qual convivemos por tantos anos, devemos manter a consciência de sua importância em nosso processo de autoconhecimento: uma forma de gratidão pelo aprendizado.

Sogyal Rinpoche sugere o contato com a natureza como um potente método de pôr fim à dor: “Um dos métodos mais poderosos que conheço para aliviar e dissolver o sofrimento é ir para a natureza, contemplar uma cachoeira, em especial, deixando que as lágrimas e a dor saiam de você e o purifiquem como a água que flui. Pode também ler um texto tocante sobre a impermanência ou o sofrimento, e deixar a sabedoria contida em suas linhas trazer-lhe consolo. Aceitar a dor e pôr-lhe fim é possível”.

Quando nos familiarizamos com certa dor, tornamo-nos dependentes dela para nos sentirmos seguros. Muitas vezes, assim que nos sentimos alegras, passamos a sentir insegurança. Quem já não disse para si mesmo a frase: “É bom demais para ser verdade”. Eis que preferimos a dor: sentimo-nos, infelizmente, seguros com ela.

A intensidade da dor de uma emoção possui um tempo que lhe é próprio, mas que também tem seu fim. Se ela continuar presente depois de um tempo prolongado é porque a estamos invocando em demasia. É melhor pararmos de invocar essa dor e abrirmo-nos para o desconhecido, perguntando-nos: “Como serei sem essa dor?”.

Lama Gangchen Rinpoche nos alerta: “Estamos profundamente habituados a essas respostas emocionais negativas que, por esse motivo, surgem já quase espontaneamente a partir de causas muito pequenas. Desperdiçamos tempo demais nos preocupando obsessivamente com nossos problemas emocionais.

Se quisermos mudar, teremos que começar a fazer algo diferente em nosso dia-a-dia. O poder de decisão de sair de uma dor surge com a percepção de que estamos sofrendo desnecessariamente!

Precisamos, então, treinar a reconhecer o nosso bem-estar para tomar decisões baseadas na alegria.

Quando aceitarmos o fato de que podemos experimentar conscientemente nossa dor, então, estaremos prontos para nos libertar dela! Finalmente romperemos o hábito de autocomiseração e estaremos aptos para sermos felizes.

No Budismo Tibetano podemos aprender a usar a emoção como veículo de transmutação, como nos explica John Welwood: “Como palavra alquímica, transmutação significa converter alguma coisa aparentemente inútil em algo valioso, como chumbo em ouro”.

Muitas vezes encontramos justificativas nobres para não mudar, quando, na realidade, estamos é precisando ser mais sinceros com nossa fraqueza.

A sinceridade é um antivírus contra as interferências interiores e exteriores, pois quando somos sinceros não fazemos rodeios. A sinceridade nos dá coragem e abertura para lidar com qualquer situação, agradável ou desagradável. Desta forma, nos abrimos para o mundo. A falta de foco é um modo de nos protegermos das exigências do mundo, e de adiarmos nossa participação nele.

Ao saber quem somos, podemos adquirir a flexibilidade de perceber igualmente as nossas necessidades e as dos outros sem privilegiar nenhuma das partes. Assim, não estaremos amarrados a nós mesmos, nem nos confundirmos com os desejos dos outros.

Então pergunte-se agora, com toda sinceridade: “Será que estou sofrendo desnecessariamente?”. Temos que admitir que nossa resposta será sim enquanto estivermos tendo dificuldades para lidar com a imperfeição. Enquanto formos inflexíveis e controladores, sofreremos desnecessariamente.

A maneira como lidamos com as situações imprevisíveis na vida indica-nos aptidão para a felicidade. É natural contarmos com certo grau de previsibilidade para nos sentirmos seguros, mas se não quisermos sofrer desnecessariamente precisamos aceitar o fato de que não podemos controlar os eventos da vida.

Quando algo que julgávamos certo e estável desaparece- como um relacionamento, um emprego ou nossa saúde, sentimos um grande vazio, mas teremos que reconhecer que erramos ao esperar que nossa vida fosse previsível.

Podemos treinar para nos arriscarmos diante de uma situação desconhecida alimentando a curiosidade por nossa própria capacidade de atuação. Podemos, por exemplo, nos propor: “Quero só ver como vou me oferecer o melhor nesta situação desconhecida. Estou curioso(a) para ver como não irei me abandonar desta vez”.

(1) Bel Cesar (org), Oráculo I Lung Tem, Ed Gaia.p.67.

Texto extraído do Livro das Emoções, Bel Cesar, Ed Gaia.

Bel Cesar é psicóloga clínica com formação em musicoterapia no Instituto Orff em Salzburgo, Áustria – Pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano – Presidiu o Centro de Dharma da Paz Shi De Choe Tsog, em São Paulo, por 16 anos tornando-se presidente honorária em 2004.