segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Resiliência

Há mais de quarenta anos, a ciência tem-se interrogado sobre o fato de que certas pessoas têm a capacidade de superar as piores situações, enquanto outras ficam presas nas malhas da infelicidade e da angústia que se abateram sobre elas como numa rede engodada.

Por que certos indivíduos são capazes de se levantar após um grande trauma e outros permanecem no chamado fundo do poço, incapazes de, mesmo sabendo não ter mais forças para cavar, subir tomando como apoio as paredes desse poço e continuar seu caminho?

As experiências e estudos feitos têm mostrado algumas explicações científicas sobre esse fato. A biologia defende o ponto de vista de que cada ser humano é dotado de um potencial genético que o faz ser mais resistente que outros. A psicologia, por sua vez, dá realce e importância das relações familiares, sobretudo na infância, que construirá nesse individuo a capacidade de suportar certas crises e de superá-las.

A sociologia vai fazer referência à influência do entorno, da cultura, das tradições como construtores dessa capacidade do individuo de suplantar as adversidades. A teologia traz um aporte diferente pela própria subjetividade transcendente, uma visão outra da condição humana e da necessidade do sofrimento como fator de evolução espiritual: o célebre “dar a outra face”.

Mas foi o cotidiano das pessoas que passam por traumas, que realmente atravessam o vale das sombras, o que realmente atraiu a curiosidade de cientistas do mundo inteiro. Não são personagens de ficção que se erguem após a grande queda; são homens, mulheres, crianças, velhos, o individuo comum do mundo que retoma sua vida após a morte de um filho, a perda de uma parte de seu corpo, a perda do emprego, doenças graves, físicas ou psíquicas, em si mesmo ou em alguém da família, razões suficientes para levar um individuo ao caos. Esses que são capazes de continuar uma vida de qualidade, sem auto-punições, sem resignação destruidora, que renascem dos escombros, esses são seres resilientes.

A resiliência é um termo oriundo da física. Trata-se da capacidade dos materiais de resistirem aos choques. Esse termo passou por um deslizamento em direção às ciências humanas e hoje representa a capacidade de um ser humano de sobreviver a um trauma, a resistência do individuo face às adversidades, não somente guiada por uma resistência física, mas pela visão positiva de reconstruir sua vida, a despeito de um entorno negativo, do estresse, das contrições sociais, que influenciam negativamente para seu retorno à vida. Assim, um dos fatores de resiliência é a capacidade do individuo de garantir sua integridade, mesmo nos momentos mais críticos.

Não se é resiliente sozinho, embora a resiliência seja íntima e pessoal. Um dos fatores de maior importância é o apoio e o acolhimento, feito em geral por um outro individuo, e essencial para o salto qualitativo que se dá. Alguns autores nomearam essas pessoas: Flash chamou-o mentor de resiliência; Cyrulnik chamou-o tutor de resiliência; muito antes Bolwby chamou-o figura de apego. Denominações a parte, a resiliência ganha hoje seu espaço na pesquisa em ciências humanas, médicas, sociais, administrativas etc.

Mas não se forma um mentor/tutor/figura de apego. Não se pode dizer que alguém vai ser a partir de agora esse individuo que vai chegar para operar o milagre. A resiliência é, na verdade, o resultado de intervenções de apoio, de otimismo, de dedicação e amor, idéias e conceitos que entram sorrateiramente nas ciências como causa e efeito, intervenção e resultado, hipótese e tese de que as relações intra e interhumanas são relações que ultrapassam o rigor do empirismo para encontrar o acaso.


Por Dra Sandra Maia Farias Vasconcelos


Uma Arte de Cuidar - O Estilo Alexandrino

Uma Escola do Olhar

Eis a importância da prática da transdisciplinaridade . Saber que há diferentes pontos de vista sobre uma mesma realidade. E que precisamos de todos eles para ver melhor.

Os Antigos Terapeutas [de Alexandria] buscavam despertar, em si, o que chamamos o olho do Querubim. O Querubim, na tradição antiga, é um estado de visão, representado como asas repletas de olhos. Essa imagem é encontrada em diversas culturas, particularmente na tradição da Etiópia, onde há querubins nos tetos das igrejas: olhos que nos olham.

Certa vez, quando adoeci na Etiópia, fiquei surpreso ao ver um médico me dar um pequeno rolinho e dizer: - Seu remédio. Ao desenrolar vi que havia nele asas com olhos. Tocou-me profundamente porque compreendi que tratava-se de colocar outro olhar sobre a doença.

Há a visão do médico, do psicólogo, dos amigos, mas há também o olhar do Anjo. Esse olhar que vê o que acontece segundo um outro ponto de vista, de outra profundidade e que contempla a nossa doença ou sintomas não somente como os olhos humanos são capazes. Então pode se abrir, talvez, uma outra interpretação sobre aquilo que nos ocorre.

Assim, convido-o a imaginar um olho, com facetas, como o de uma abelha. Como ele nos veria nesse momento? Não tem nada a ver com a nossa maneira habitual de olhar. Ou um cavalo – você já pensou em mirar alguém com o olhar de um cavalo? Aparecemos com uma forma completamente diferente. Trago essas imagens para nos lembrar que a visão do mundo que temos é ligada ao nosso instrumento de percepção e no olho de um cavalo ou de uma abelha há todo um outro mundo. A maneira de ver alguém pode mudar, segundo a qualidade do nosso olhar.

Então, a tarefa é despertar em nós essas diferentes facetas. Isso me faz pensar nas diferentes áreas do cérebro, nas diferentes capacidades de apreender o mundo.

Vou propor o olhar dos Antigos Terapeutas que possui sete olhos. Geralmente paramos no terceiro olho.

O primeiro olhar é o do ver – eu vejo.

O segundo é o olhar da ciência – eu observo, eu analiso. E´um olhar apoiado, aprofundado.

O terceiro olhar é o que pergunta – eu interrogo. O que é esse sintoma? O que ele manifesta? O quê? O que é?

O quarto olhar é o que se pergunta – eu me interrogo. Como é que eu vejo? E´o olho da filosofia metafísica. O que é o Ser? O que é o ser humano? Trata-se do como eu conheço. Esta é a filosofia de Kant , por exemplo, que se interroga sobre como a ciência é possível. Eu conheço muitas coisas, mas não apreendo o instrumento através do qual eu conheço as coisas. Para um Terapeuta há uma questão muito importante: Qual é o instrumento por meio do qual ele conhece o outro e interpreta sua doença? E´necessário purificar este instrumento e ver que, segundo o modo de percepção que adotamos, a realidade dos sintomas pode ser completamente diferente. Não somente interrogo o real, esse corpo que acompanho, mas também sobre minha maneira de conhece-lo.

O quinto olhar se abre para o sentido – eu acolho o sentido. Por intermédio dos sintomas, dos sonhos, da fala, simplesmente acolho o sentido, antes de interpreta-lo.

O sexto olhar é o da interpretação – eu interpreto. Essa interpretação pode ser criadora. Após o exercício de todos esses olhos da observação, da análise, da interrogação, da escuta acolhedora, me torno capaz de interpretar e dar um sentido ao que a pessoa está vivendo.

O sétimo olhar é o que direciona e liberta – vá com sentido! Da mesma maneira que dizemos:- Vá com Deus! Poderíamos dizer: - Vá com sentido! Vá com a interpretação da sua doença, não apenas na sua dimensão mental; também com os meios de cura-la, de cuidar de você. Essa é a grande palavra dos Terapeutas: Vá em direção a você mesmo, eu estou com você! Esta foi a palavra de Deus dirigida a Abraão. “


Jean-Yves Leloup, doutor em Psicologia, Filosofia e Teologia, escritor, conferencista, dominicano e depois padre ortodoxo, oferece através dos seus livros, conferências e seminários um aprofundamento dos textos sagrados, assim como uma abordagem e uma reflexão extremamente ricas sobre a espiritualidade no quotidiano graças à uma formação pluridisciplinar de rara complementaridade.

O despertar de uma grande alma - VOCÊ!


É incrível o que podemos fazer com nossas vidas.

Podemos torná-las ótimas ou insuportáveis.

Tudo depende exclusivamente de nós. Somos a construção, a manifestação da nossa própria criação. Aquilo em que acreditamos, pedimos, pensamos ou tememos, se manifesta em nossa vida. Não se trata de apenas desejarmos uma mudança, mas também de fazermos algo para que esta mudança possa acontecer. Eu costumo contar uma breve historia para meus clientes.

Nós somos os jardineiros e nossa vida é o jardim.

Se você um dia plantou uma boa semente em um solo árido, seco e duro, ela provavelmente não se desenvolveu plenamente. Mas, se depois de um tempo você for até esse jardim e adubá-lo, regá-lo com água pura e limpa, arejar a terra, provavelmente os resultados serão bem diferentes.
Se, quando essa pequena semente começar a germinar e se transformar em um broto, você olhar pra ele e pensar "você não é uma planta; está demorando demais pra crescer; que cor esquisita você tem; eu sabia que daí não surgiria nada de bom", o que vai acontecer com este broto?
Se você, ao ver o desabrochar dessa pequena planta, regá-la novamente, imaginar a linda planta que está surgindo, passar a adubá-la regularmente e aguardar o tempo necessário para que ela possa se desenvolver, em algum tempo terá uma planta capaz de alcançar o máximo do seu potencial.


O mesmo pode ocorrer com a nossa vida. Nós podemos mudar nossos pensamentos e comportamentos, e ao apoiarmos nosso processo de mudança, passamos pela fase inicial mais dolorosa, que é a de quebrar a dura casca da semente. Ao confiar em seu desenvolvimento, depois de um tempo nós teremos uma nova possibilidade, uma pequena amostra do que será nossa nova vida.
Porém, para que cada mudança ocorra, precisamos dar a ela uma chance. Às vezes desejamos que algo aconteça, mas por mais que tentemos, as coisas continuam iguais.

Para todos aqueles que fizeram parte da sua historia, mesmo que você não os tenha conhecido. Seus pais, avós, irmãos, tios. Os vivos e os que já se foram. Os destinos de cada um deles e os principais fatos que aconteceram em suas vidas ainda têm uma ligação conosco e podem estar influenciando nossos relacionamentos ou nossa saúde.

Voltando para a metáfora do jardim, você é como uma árvore. Sua família é a sua raiz. Todos que fizeram parte da sua historia ajudaram a criar as suas raízes. Quando uma árvore tem raízes fortes ela pode receber alimento do solo e crescer alta e saudável. Quando a raiz é fraca, ou tem falhas e cortes, a árvore não tem força e, por mais que ela queira, talvez seja apenas como um pinheirinho de Natal que é vendido nas esquinas dentro de vasos rasos. Frágil e sem poder de crescer. Quando podemos olhar para nossa historia através das Constelações nos reconectamos com nossas raízes e ficamos então livres para crescermos fortes!

Às vezes, nesse processo de crescimento, precisamos de apoio, encorajamento e nutrição.

Para a mente: fortalecer as crenças que nos apoiam e impulsionam para frente e remover aquelas que nos limitam. Esse processo é como tirar as ervas daninhas que podem surgir perto do seu novo broto que germina.

Para o corpo, nutri-lo com alimentos que curam e trazem energia, eliminando, ao mesmo tempo, aqueles que sabemos que nos fazem mal. Exercitando nossos músculos, fazendo massagens carinhosas e curativas que libertam as memórias que ficaram gravadas dentro de nós.

Para a alma, entrando em contato com nossos sentimentos, emoções, nos conectando novamente com a essência do amor e da vida.

E ainda precisamos de tempo.

Espero que você possa escolher fazer as mudanças que vem desejando há tanto tempo. Escolha, faça, aja! Agora!

Você merece ser feliz. É seu direito. Sua decisão.

Texto extraído do site Constelações Familiares.

Nathalie Favaron é Coach certificada pela European Coaching Association e Terapeuta Sistêmica especializada em Constelações Familiares e Organizacionais em atendimento individual.


O perigo dos pequenos pensamentos negativos


Como é verdadeiro o fato de que basta seguirmos um ínfimo pensamento negativo para desencadearmos uma série de dúvidas e frustrações! Nossos pequenos pensamentos negativos são como um vírus, que rapidamente se multiplica e cresce, causando-nos febre e mal-estar.

É preciso manter nossa mente sob uma lente de aumento de microscópio.

Como são tantos os pensamentos que fluem em nossa mente, na maioria das vezes não nos damos conta do quanto somos invadidos por atitudes mentais destrutivas. É como a gripe: na maioria das vezes, só percebemos que estamos gripados quando começamos a nos sentir mal. Mas assim como é possível reverter um processo gripal se soubermos identificar seus menores sintomas, podemos reverter a mente negativa ao aprender a identificá-la assim que ela surgir.

Lama Gangchen Rinpoche nos ensina a reconhecer os menores sinais de mudança de nossa mente nas diversas expressões de rosto: elas refletem as nuanças de cada forma-pensamento. Para tanto, ele nos estimula a usar nossa capacidade de manter a atenção como um espelho. Isto é, se estivéssemos vendo nossa imagem 24 horas refletida num espelho, ficaríamos surpresos ao ver quantas de nossas expressões faciais não são tão belas quanto aquelas que tentamos fazer quando nos olhamos no espelho rapidamente para nos arrumar.

“Se não queremos mais ter faces feias, temos que começar por admitir que costumamos fazê-las”, alertou Lama Gangchen Rinpoche em seus ensinamentos.

Mas, por que fazemos faces feias? Rinpoche nos lembra que estas faces expressam nossa fome e sede interior que se agravam à medida que não fazemos nada para saciá-las! Costumamos perder mais tempo nos lamentando da fome do que gerando recursos para supri-la. Isso ocorre porque conhecemos pouco os alimentos da alma. O que torna nossa mente sutil satisfeita?

São atitudes que nutrem nosso corpo e mente sutil: orar, recitar mantras, fazer visualizações criativas, assim como mover o corpo com gestos pacíficos. Temos que admitir que nossas atitudes habituais não nos nutrem verdadeiramente, pois são o resultado de uma mente pequena que quer apenas se proteger, se defender. Mas possuímos também uma mente grande, que busca naturalmente por evolução.

Thomas Moore, em seu livro O que são almas gêmeas (Ed. Ediouro), comenta que por mais verdadeiros que sejam os problemas da vida prática, eles nunca são idênticos às preocupações da alma. Por isso, escreve: “Para nos devotarmos à alma, talvez seja preciso soltar outros vínculos, e para permitir que a alma expresse sua própria intencionalidade e propósitos, talvez tenhamos que abrir mão de antigos valores e expectativas”.

De fato, as exigências da alma podem nos parecer paradoxais. Por exemplo, quem não conhece o desejo de querer se libertar das atitudes baseadas no apego, como o ciúme? Apesar da alma não querer viver sob a tensão do controle, nossa mente pequena encontra apenas segurança quando controla tudo e todos...

Por isso, sentir a satisfação interior é uma tarefa difícil demais para uma mente pequena!

Lama Gangchen nos ensina a diferenciar as atitudes mentais entre uma pequena e uma grande mente. Quanto estamos sob os ditames da mente pequena, dizemo-nos: “Eu não sei... eu não quero... eu não posso”... Mas quando atuamos com nossa mente grande, proclamamos sem dificuldade: “OK, eu posso lidar com esta situação, seja ela agradável ou não”.

A mente grande não rejeita nenhuma experiência da vida. Afinal, ela não está contaminada por atitudes covardes ou indulgentes. Se passarmos a observar honestamente quantas situações podemos enfrentar se não seguirmos nossa mente pequena, ficaremos surpresos e felizes em notar que podemos fazer muito mais do que estamos habituados.

Temos que admitir que as atitudes mentais de uma mente pequena não nos nutrem verdadeiramente, pois são o resultado da insegurança. Uma mente pequena diz que não sabe, mesmo antes de se questionar. Diz que não quer, sem ter consultado seus desejo mais profundos. Baseadas na carência, são atitudes que buscam se defender sem até mesmo terem sido atacadas. Uma mente pequena é tendencialmente competitiva. Apesar de ser uma mente baseada na crença de ser excluída e solitária, não busca por união. Já a mente grande busca naturalmente evoluir, unir, comungar.

A mente pequena nutre o sofrimento, enquanto que a mente grande sabe como absorvê-lo. O sofrimento perde sua força ao passo que é reconhecido pela mente grande. Por isso, os mestres budistas nos incentivam a dialogar com o nosso sofrimento. Lama Gangchen nos fala: “Deixe a sua sabedoria conversar com a sua ignorância. Dê tempo e espaço para sua sabedoria de expressar. Ela não deve ficar oprimida pela ignorância”.

A agitação interior é um reflexo do movimento de uma mente pequena. Se nos determinarmos a não segui-la e, cultivarmos uma atitude de calma e a atenção, já estaremos manifestando naturalmente nossa mente grande!

Bel Cesar é terapeuta e dedica-se ao atendimento de pacientes que enfrentam o processo da morte. Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções e Mania de sofrer pela editora Gaia.

Maneiras de acessar a espiritualidade


Texto escrito por José Tadeu Arantes

Nos últimos 30, 40 anos, uma sede de espiritualidade se instalou no planeta, fazendo com que muitos ateus convictos voltassem a suas religiões de origem ou fossem buscar em formas religiosas alternativas respostas a suas inquietações interiores. Contrariando Freud, que encarava a espiritualidade como um sintoma de imaturidade psíquica, pesquisadores respeitáveis, como o psiquiatra tcheco Stanislav Grof, garantem ser a dimensão espiritual uma instância fundamental da psique. Negá-la nos tornaria irreparavelmente mutilados. Segundo o médico Claudio Lottenberg, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, 96% dos americanos acreditam em Deus e 90% rezam sistematicamente.

“Os que rezam fazem também por acreditar que suas preces têm um impacto sobre a saúde. Creio que esses dados podem ser estendidos ao Brasil”, afirma o médico. Mas, independentemente do motivo que a desencadeou, uma característica dessa nova espiritualidade é seu caráter ecumênico, menos preocupado em seguir o figurino de uma religião do que em combinar diferentes tradições. “Eu chamo essa tendência de bricolagem ou patchwork espiritual”, diz o pesquisador Frank Usarski, professor do programa de pós-graduação em ciência da religião da PUC de São Paulo.

“Ela leva em conta a liberdade do indivíduo na busca de seu caminho espiritual e está ligada à crise das instituições religiosas tradicionais. Explico: ioga, meditação, tarô, I Ching, carma, reincarnação etc. são práticas e conceitos cada vez mais usados de maneira isolada, sem nenhuma referência ao contexto histórico e sistemático em que originalmente surgiram.”É claro que essa tendência apresenta o risco da superficialidade, mas possui também um aspecto positivo, fazendo de cada um o sujeito de suas próprias escolhas.

Toda religião genuína nos traz uma parcela da verdade, adaptada ao tempo, ao lugar e às pessoas para as quais foi destinada. Por isso, as diferentes religiões não são excludentes, mas complementares. Jalal ud-Din Rumi (1207-1273), um grande místico e poeta sufi, declarou que existem tantos caminhos quanto caminhantes. Cabe ao indivíduo empreender sua própria viagem. Ligando o som para a música tocar sua alma, ficando quieto para ouvir o que há de mais profundo, observando a natureza ou indo para Santiago de Compostela.

No contraponto do som, a ausência deste também leva à abertura espiritual. A recitação musical dos sufis muçulmanos culmina no silêncio. A cabala judaica ensina que mais poderosa do que a prece pronunciada (constituída de sons articulados) e a prece mental (formada de pensamentos conscientes) é a prece silenciosa, realizada com a completa entrega ao divino.

Por meio do silêncio, o praticante alcança um estado de consciência superior ao da fala e ao do pensamento.

Silencia para que algo maior se expresse.

É a esse estado superior de consciência que alude o Salmo quando diz:

“Aquietaivos e sabei que eu sou Deus”. Na Índia, esse silêncio verbal e mental é chamado de Mauna Yoga. Sri Aurobindo Ghose (1872-1950), um dos maiores iogues da era contemporânea, explica o poder de tal prática:

“Quando o mental mergulha no silêncio é que, mais freqüentemente, se produz a completa descida de uma vasta paz, vinda do alto. E, nessa vasta tranqüilidade, dá-se a realização do Eu silencioso, situado acima do mental”.

Presentes em todas as religiões, eles são veículos que conduzem a Deus. A espiritualidade cristã afirma que, “no princípio, era o Verbo”, a palavra criadora de Deus. Também na espiritualidade indiana, o Aum ou Om, o Som Primordial, é considerado a primeira manifestação do divino.

Não se trata, é claro, do som articulado e audível, que necessita de um meio material para se propagar. Esse é apenas o quarto e último estágio do som. Aum ou Om é o primeiro. Não é a voz de Deus, mas a própria divindade em vibração. Pela repetição dessa sílaba, o iogue sintoniza sua consciência com o divino. Por isso, quase todos os mantras começam com Aum ou Om.

O emprego do som como um veículo para estados superiores de consciência está presente em todas as tradições espirituais autênticas. O xamã antigo tinha suas canções de poder, recebidas do plano espiritual ou transmitidas pelos sons da natureza (o pio da coruja, o farfalhar do pinheiro etc.). No candomblé afrobrasileiro, cada orixá é convidado a descer ao terreiro com um toque específico do atabaque. O emprego do som como um veículo para estados superiores de consciência está presente em todas as tradições espirituais autênticas. O xamã antigo tinha suas canções de poder, recebidas do plano espiritual ou transmitidas pelos sons da natureza (o pio da coruja, o farfalhar do pinheiro etc.).

E os padres do monte Atos, na Grécia, até hoje alcançam o transe místico sincronizando a recitação da frase Kyrie eleison (“Senhor, tende misericórdia”) com o ritmo respiratório. Procedimento semelhante é adotado por cabalistas judeus e sufis muçulmanos. Recuperando sua força original, que nossa ruidosa civilização esqueceu, a palavra evoca (lembra) e invoca (chama) a presença divina.

“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os mundos e os deuses.” Essa frase foi escrita na porta do Oráculo de Delfos, na antiga Grécia. Cada vez mais parte da vida, não estranha que o tema espiritualidade esteja presente no espaço terapêutico. Podemos começar uma sessão tristes, angustiados com problemas de relacionamento – em casa ou no trabalho – e sair com algo além de alento. Além de reflexão também. “As diferentes terapias têm como objetivo colocar o indivíduo em contato consigo mesmo.